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10 livros sobre o 11 de Setembro e arredores

por Daniel Lopes (15/07/2011)

Obras importantes para compreender o antes, durante e depois de 2001

por Daniel Lopes

Neste segundo semestre deve aparecer uma torrente de livros “comemorando” o 11 de Setembro, que completa 10 anos. Resolvi elaborar a lista abaixo para servir de possível roteiro para os interessados, sejam leitores fieis do Amálgama ou aqueles que chegarem até aqui via mecanismos de busca. A vantagem de fazer essa relação agora, sem incluir títulos da nova leva, é que temos uma seleção com obras escritas, por assim dizer, no calor dos acontecimentos. O livro de Peter Bergen, saído este ano, é uma exceção a essa regra, mas seria criminoso deixá-lo de fora. O livro de Michael Burleigh trata do tema do terrorismo de uma forma geral; seria sem dúvida possível indicar dez livros apenas sobre o 11 de Setembro, incluindo no máximo a guerra do Afeganistão, mas nenhum evento ocorre fora da história e seria desperdício de energia para qualquer pessoa ficar lendo sobre um fato isolado.

Infelizmente, apenas dois desses livros já foram traduzidos no Brasil. Mas se você seguir os links, encontrará alguns dos importados mais baratos do que se tivessem versões brasileiras. Boa leitura.

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O vulto das torres: A al-Qaeda e o caminho até o 11/9, de Lawrence Wright (2006; ed. bras. 2007).
É o básico. A obra, vencedora do Pulitzer, percorre eventos que vão da fundamentação ideológica da al-Qaeda e de outros grupos, nos escritos de Sayyid Qutb, até os atentados de 11 de setembro de 2001.

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The longest war: The enduring conflict between America and al-Qaeda, de Peter Bergen (2011).
Serve como sequência ideal ao livro acima, indo do 11 de Setembro até pouco antes da morte de Bin Lade. Tanto Wright quanto Bergen (repórteres, respectivamente, da New Yorker e da CNN) têm incontáveis contatos entre funcionários e ex-funcionários dos governos Clinton, W. Bush e Obama, bem como nas fileiras de militantes e ex-militantes do Tabilã e da al-Qaeda. Os dois jornalistas são extremamente habilidosos na reconstrução de complexos quebra-cabeças, notando as falhas da comunidade de inteligência e das operações das forças armadas estadunidenses. Entre outros erros crassos, os EUA se recusaram a ver os ataques da al-Qaeda nos anos 90 contra alvos do país no exterior pelo que realmente eram: atos declarados de guerra — daí para achar que não era lá tão necessário o compartilhamento de informações entre CIA e FBI sobre radicais islâmicos em movimento no país bastou apenas um passo. Também, a narrativa minuciosa que Bergen faz da escapada de Bin Laden e outros cabeças da al-Qaeda em 2001, do Afeganistão para o Paquistão, delineia toda a incompetência tática da equipe de W. Bush. Lawrence Wright e Peter Bergen honram a profissão de jornalista.

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The second plane – September 11: Terror and boredom, de Martin Amis (2008).
Amis é primariamente um ficcionista, mas, nestes ensaios publicados entre 2001 e 2007, dá sua excelente contribuição ao debate.

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Dostoïevski à Manhattan, de André Glucksmann (2002).
Porque, de certa forma, já encontramos os terroristas do 11 de Setembro lá naquele livrinho do russo, certo?

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Terror and Liberalism, de Paul Berman (2003).
Berman, que ficou famoso como um historiador da Geração 68 nos EUA e na Europa, faz aqui uma ligação entre o islamismo e os totalitarismos do século 20, e como a esquerda liberal patinou diante de todos eles.

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The islamist: Why I joined radical Islam in Britain, what I saw inside and why I left, de Ed Husain (2007).
Então talvez você queira ver se a teoria de Berman faz mesmo algum sentido. Será que não é exagero comparar um militante fascista da Itália dos anos 30 a um ativista islâmico radical? O relato de Ed Husain – que ilumina o ambiente de doutrinação, ódio a valores liberais e glorificação da violência – mostra que parte do substrato do radicalismo islâmico nos é mais familiar do que muitos gostariam de reconhecer.

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Engaging the Muslim world, de Juan Cole (2009).
As respostas dos EUA aos eventos de 2001 foram uma série de tragédias, defende o professor Cole. A estratégia montada para a “guerra ao terror” foi equivocada, nada de bom resultou da guerra do Iraque (que apenas tirou a atenção do Afeganistão), o Irã teria que ser engajado na luta como um aliado, não como um potencial alvo etc. Vale a pena ler, porque muita coisa que Cole diz é incontestável. [O Amálgama reproduz alguns textos do Cole.]

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What’s left? – How the left lost its way, de Nick Cohen (2007).
Dos vários livros que examinaram criticamente as reações do mainstream esquerdista ao 11 de Setembro e aos acontecimentos posteriores, e que não foram escritos por conservadores, o do britânico Nick Cohen se destaca. As justificativas espúrias para crimes terroristas são desconstruídas com uma mistura de frieza, sarcasmo e aberto desprezo por aqueles que, por exemplo, viam Bin Laden como uma tribuna dos árabes miseráveis, ou que preferiam Saddam à OTAN. Para encontrar a raiz dessas tolices, Cohen vai à oposição encontrada pela intervenção ocidental nos Bálcãs e, mais atrás, ao advento das teses “desconstrucionistas” e teorias “radicais” na academia. Há uma mostra desse livro disponível para todos, um capítulo mormente sobre Noam Chomsky, que você pode ler aqui. [O Amálgama reproduz alguns textos do Cohen.]

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Ocidentalismo: O Ocidente aos olhos de seus inimigos, de Ian Buruma e Avishai Margalit (2004; ed. bras. 2006).
Muito bem pensado e escrito. Leia.

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Blood and Rage: A cultural history of terrorism, de Michael Burleigh (2008).
O historiador britânico se ocupa tanto dos atos terroristas em si quanto das histórias de vida de vários “ativistas” que acham que o assassinato intencional de civis ajudará no nascimento de um mundo melhor, e surge uma série de linhas que ligam uns aos outros, não obstante os anos e décadas que os separam. A obra, enorme e que vale cada página, começa no século 19, com revolucionários russos mais exaltados e os ataques a dinamite na Inglaterra realizados pela Irmandade Republicana Irlandesa, e vem até a era de terrorismo islâmico global. Entre isso, Burleigh estuda o terrorismo de movimentos de descolonização, de grupos separatistas, de colonos judeus na Palestina e a violência da esquerda niilista alemã e italiana nas décadas recentes de luta contra a abominação das democracias burguesas.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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