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Terra dos mortos-vivos

por Daniel Lopes (10/07/2013)

Na Coreia do Norte, a lógica comunista foi estendida ao extremo

"Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte", de Barbara Demick

“Nada a invejar: Vidas comuns na Coreia do Norte”, de Barbara Demick

Fora das querelas geopolíticas dos últimos anos e décadas – uma Coreia do Norte aumentando a retórica e ameaçando tocar fogo nos vizinhos apenas para conseguir concessões e esmolas que permitam ao regime se manter de pé e se acalmar, até chegar a hora de subir a retórica de novo –, o livro de Barbara Demick acompanha as vidas e lutas por sobrevivência de um punhado de norte-coreanos que conseguiram votar com os pés, escapando para a China ou a Coreia do Sul, onde Demick contatou-lhes durante os anos em que trabalhou como correspondente do Los Angeles Times em Seul.

A primeira vantagem de se estudar a vida interna da Coreia do Norte, dos coreanos comuns, é exatamente ver que a população não tem a menor ideia de que o cenário descrito no início do parágrafo acima possa ser verdade. Como o noticiário vindo de fora aparece para o povo, após severa filtragem e distorção da mídia estatal, os mandatários comunistas são vistos como dedicados guardiões do bem-estar do povo norte-coreano, temidos e respeitados pelos líderes imperialistas de Japão, EUA e outros.

Ao dar voz a indivíduos como o casal Jun-sang e Mi-ran, Demick expõe para os leitores diversos aspectos da vida na Coreia do Norte. Antes de mais nada, ao mostrar o drama de norte-coreanos exilados, angustiados por não terem informações dos parentes que ficaram para trás; muitos só falaram com a autora sob pseudônimo, para que não houvesse risco dos parentes do outro lado da fronteira serem identificados e penalizados.

No livro, há temas já bastante conhecidos por nós de fora, como a devoção religiosa de que são depositários os chefes da nação comunista, mas também surgem imagens menos conhecidas, como a do puritanismo do regime. “Devoção religiosa” é muito mais do que força de expressão, como deixa claro um passeio pela mitologia totalitária:

Ao chegar ao poder, Kim Il-sung fechou as igrejas, baniu a Bíblia, deportou fiéis para regiões remotas do interior e se apropriou da iconografia e dos dogmas do cristianismo com propósitos de autopromoção. (…) Como o de Jesus Cristo, o nascimento de Kim Jon-il teria sido anunciado por uma estrela radiante no céu e pela aparição de um lindo arco-íris duplo.

Um casal, Oak-hee e Yong-su, casou-se nos anos 80 “diante de uma estátua de Kim Il-sung, que simbolicamente presidia todos os casamentos”.

O puritanismo, em parte derivado das tradições coreanas, foi elevado a níveis absurdos após a chegada ao poder dos comunistas. Il-Sung, explica Demick, “fundiu o conservadorismo coreano tradicional com o instinto comunista para a repressão da sexualidade”. Casas de tolerância foram fechadas, pornógrafos fuzilados, campanhas do Estado incentivam as mulheres a adotarem “penteados tradicionais em concordância com o modo de vida socialista” e a Polícia de Normas Públicas tem autorização para prender as que vestirem algo mais ousado. Em suma, o regime dos aiatolás iranianos é logo ali.

Os encontros entre jovens não casados são desestimulados, e é melhor que ocorram muito furtivamente. As cenas de seus encontros de namorico de juventude que a agora adulta Mi-ran conta a Demick nos lembram ocorrências parecidas no 1984 de Orwell. “Quando desapareciam os slogans, a cidade acabava e eles podiam relaxar na escuridão” – isso é de Nada a invejar.

Mais que um estado policial, a Coreia do Norte é um estado militarizado. O país, de apenas 23 milhões de habitantes, tem um dos maiores efetivos de exército do mundo — ou seja, muita gente com potencial para ser julgada no pós-comunismo como apoiadora ativa do regime e, portanto, por via das dúvidas, com interesse agora na sustentação do mesmo. Enquanto a média de gastos com defesa dos países ricos é de 5% do PIB, na Coreia do Norte esse número é de 25%. Isso apesar de existirem necessidades mais prementes (para o povo, se não para o instinto de sobrevivência da casta governamental): em meados dos anos 90, 10% da população já havia morrido de fome. A escassez de alimentos é tanta que o jovem norte-coreano mede cerca de 12 centímetros menos que seu par sul-coreano – a propósito do que o saudoso Christopher Hitchens escreveu: “You may care to imagine how much surplus value has been wrung out of such a slave, and for how long, in order to feed and sustain the militarized crime family that completely owns both the country and its people”.

Aliás, até a fome em massa é arregimentada para render palavras de ordem a fim de mobilizar o coreano comum como se este estivesse no meio de uma batalha de vida ou morte com o imperialismo – “Vamos comer duas refeições por dia”.

A lógica comunista foi estendida ao ponto em que a única forma de empreendimento individual que restou aos indivíduos foi a arte mais primitiva de todas: bolar maneiras para não morrer de fome. Tudo ilegal, claro. Como ensinou Kim Jong-il nos anos 90, “numa sociedade socialista, até mesmo o problema da alimentação tem que ser resolvido de um modo socialista. Dizer às pessoas que resolvam por conta própria os seus problemas de alimentação cria o egoísmo entre elas”. Mas várias pessoas continuaram sendo criminosamente egoístas, e a criatividade alimentar ficou tão disseminada que, hoje em dia, muitos dos famosos chefes de cozinha na Coreia do Sul e em outras partes da Ásia são fugitivos norte-coreanos. De modo que se pode dizer que a maior colaboração do comunismo coreano para a humanidade não foi de caráter econômico, moral, político ou cultural, mas sim culinário.

O regime chantagista da Coreia do Norte pode ser derrubado internamente, pela força de um povo revoltado? Dificilmente. O governo comunista é sustentado por algumas cordas ideológicas frágeis, por absurdas e destruíveis diante da mais prosaica “invasão” externa, como livros e DVDs piratas de pipocões hollywoodianos – como alertou o Partido dos Trabalhadores, “se nos permitirmos ser afetados por esses materiais incomuns, nossa atitude revolucionária e nossa consciência de classe serão paralisadas e nossa absoluta adoração pelo marechal [Kim Il-sung] desaparecerá”.

Mas o governo é sustentado principalmente por uma elite militar muito bem armada e sem qualquer escrúpulo para mandar para gulags pessoas minimamente suspeitas de qualquer oposição. Essa elite se vê e se retrata muito mais do que como o mero braço de um Partido, mas como a guardiã da honra e garantidora da sobrevivência coreana em um mundo turbulento. Não há a menor chance da ditadura comunista ser derrubada pelo “povo”. A não ser que a este seja adicionada uma significativa dissidência militar – algo difícil de surgir exatamente pela coesão e o autorretrato existentes. E se essa elite vê que existem potências de seu lado (Rússia e China) e outras acomodadas à sua política de eterna chantagem (EUA), o incentivo para abrandar a mão e eventualmente mudar os rumos do país é zero.

E para que ler o livro de Barbara Demick? Já não sabemos que o que se passa no interior da Coreia do Norte é algo feio e injustificável? É, sabemos. Mas há bastante detalhe novo nesse livro, novo pelo menos para pessoas medianamente informadas sobre a Coreia. Novos detalhes sempre são bons. É sempre bom revigorar a indignação, porque senão a balança pende para a tendência oposta. A ditadura asiática conta com a aberta simpatia do bolivarianismo latino-americano, um socialismo supostamente do século 21. E ainda agora, durante a mais nova rodada de chantagens norte-coreana, um excelso doutor pela USP escreveu em um badaladíssimo site da esquerda brasileira – chamado, of all names, Pragmatismo Político – que, “ao invés de buscarmos dar lições de democracia, civilidade e de governo para uma nação milenar, seria mais interessante entender como um país exposto àquelas condições pode alcançar um nível de desenvolvimento tecnológico capaz de projetar e lançar satélites artificiais, mísseis intercontinentais e mesmo bombas nucleares”. Julgar é a suprema arrogância. Não julguemos. Vamos apenas entender. E talvez aprender algo. Aprender é a suprema sabedoria.

::: Nada a invejar :::
::: Barbara Demick (trad. José Geraldo Couto) :::
::: Companhia das Letras, 2013, 416 páginas :::

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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