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A estreia de Sergio Leo na literatura. Resenha e entrevista com o autor

por Daniel Lopes (10/08/2009)

por Daniel Lopes – Os primeiros contos de Mentiras do Rio, principalmente, trazem boa dose de humor. Do meio ao final, nem tanto. Aposto que foi por causa do humor que o jornalista (repórter especial e colunista do Valor) e blogueiro Sergio Leo cativou o júri e levou o prêmio SESC de Literatura. São 12 […]

por Daniel Lopes – Os primeiros contos de Mentiras do Rio, principalmente, trazem boa dose de humor. Do meio ao final, nem tanto. Aposto que foi por causa do humor que o jornalista (repórter especial e colunista do Valor) e blogueiro Sergio Leo cativou o júri e levou o prêmio SESC de Literatura. São 12 contos. No segundo, “Congresso de pijama”, pés-rapados se passam por deputado e juiz num churrasco de lingüiça na varanda. O “deputado” chegando no condomínio: “Fiz bem em pegar o carro com o filho; meu Uno não dava para convencer como deputado nem que eu dissesse que era do partido comunista”.

O conto seguinte, “Monólogo de um flanelinha”, mostra bem como Sergio inteligentemente usa o humor até para abordar temas espinhosos. Mote recorrente na literatura brasileira já de alguns anos, a violência urbana dá as caras aqui, mas sem a banalização da própria literatura que quer retratar a banalidade do real. A técnica, além do estilo, traz algo novo ao leitor, ou pelo menos algo nem tão surrado. Neste terceiro conto, opera uma inversão de papéis muito bem elaborada. Talvez, usar do humor para narrar nossas tragédias tenha sido o que restou após perceber-se que a ficção não é páreo para a realidade, e após ter-se em conta que a linguagem “durona” usada por incontáveis imitadores de Rubem Fonseca para mostrar o lado deprimente do real conseguiu quase que apenas deprimir mais uma vez o leitor, agora com livros de qualidade duvidosa.

O humor do Sergio, no entanto, não é gratuito, niilista. Me lembrou o humor das novelas do Campos de Carvalho – digo, o tom de alguns narradores do Sergio me lembrou os narradores do Campos. Até quando faz metaliteratura, como em “Mentira”, o autor/narrador aproveita mesmo é pra tirar sarro do pobre leitor em apuros com um furacão de tempos verbais; não há nada que remeta à metafísica literária ou algo do tipo. Afinal, “nada é perfeito neste mundo”, lembra o narrador, “muito menos a narrativa, o relato mais-que-imperfeito de coisas tão defeituosas”.

De pouco menos da metade em diante, Mentiras do Rio abandona parcialmente o humor. Aí, topamos com alguns contos pouco inspirados (como “Uma janela na Zona Norte”) e outros com potencial para empolgar, mas que não o fazem (“Mademoiselle Souvestre”).

Em toda a extensão de seu livro, conhecemos uma outra característica interessante do Sergio, quando os contos mostram uma fascinação pelo destino, uma obsessão pela maneira como os eventos ocorreram ou poderiam ter ocorrido. Há inclusive um texto, “Não dá para voltar ao Rio”, todo cheio de alternativas, que vão inclusive numeradas. E há outros – como o citado “Mademoiselle” – que se desenvolvem em função da expectativa de um encontro (expectativa para o leitor, não para os personagens), ou – como “Cabeça de porco” e “Monólogo do flanelinha” – que se desenvolvem a partir de um encontro casual entre duas pessoas (em um caso, trágico, noutro alvissareiro).

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— UM PAPO COM O AUTOR —

[foto: Miguel Pereira]AmálgamaHá quanto tempo você mora em Brasília?
Sergio Leo – Eu trabalhava n’O Globo, no Segundo Caderno, quando minha mulher, também jornalista, viajou a trabalho para Brasília, onde encontrou um repórter que havia trabalhado comigo. Ele disse que havia uma vaga no jornal dele e tinha sugerido meu nome. A Marta me contou, eu disse a ela: “Vamos para Brasília, ficamos uns dois anos, juntamos dinheiro e voltamos ao Rio”.

Isso foi em 1985, ela cobria a morte do Tancredo e, por indicação do Ernesto Rodrigues, fui cobrir ministério do Trabalho pelo JB na direção do Ricardo Noblat. Nunca mais voltei. A não ser como turista, todos os anos, várias vezes por ano. Tenho 46 anos, e, nessa época, estava na casa dos 20, quando fiz várias matérias n’O Globo sobre lugares turísticos do Rio, algumas das quais serviram de referência para montar os cenários dos contos.


Escreveu os contos do Mentiras do Rio em que ano? Foi um exercício sentimental, situar os contos pelas ruas, avenidas e botecos do Rio de seus verdes anos?
São contos que vêm sendo escritos desde 2005, 2006, por aí. Eu guardo essas matérias que fiz n’O Globo, da década de 80, quando escrevi para o Segundo Caderno uma série de reportagens sobre locais do Rio que mereciam visita no fim de semana. Descobri coisas e histórias que nem desconfiava, e tinha vontade de aproveitar esses cenários em algum enredo, achei sempre que renderiam contos. Têm um quê de sentimental, sim, mas também de antropológico; tentei uma espécie de inventário, de tipos cariocas sem folclore.

Mas o Rio é também um pretexto para exercícios não sentimentais, mas de texto, experimentos que fiz no livro. Os contos têm, claro, referências aos anos em que, ainda muito verde, morei na cidade, conheci personagens que tinham um quê de ficção. Quis criar duas camadas de leitura, uma a mais imediata, das histórias propriamente ditas; outra, mais de reflexão sobre as ideias que colorem a narrativa. Passear com as histórias pelos becos, ruas e cantos do Rio foi uma forma de ancorar meus delírios em algo concreto.


Uma pergunta básica pra quem acaba de estrear na literatura com um livro de contos: planeja escrever um romance? Já escreveu? Está escrevendo? Ou deixa-a-vida-me-levar?
Por teimosia, quero insistir no conto, porque acho, ao contrário da praxe das editoras, que há um enorme público para eles, e que são uma fauna literária da maior importância, para a qual posso contribuir com alguns bichos. Estou escrevendo o próximo livro, que tem como eixo a arte contemporânea. É verdade que um dos contos pede para ter mais personagens, mais enredos paralelos, virar um romance, mas não confio no que dizem meus contos, esse encrenqueiro vai ser um dos textos do próximo livro mesmo.


Com tanto tempo gasto na redação, você encontra espaço para acompanhar a literatura brasileira contemporânea?
Já há algum tempo decidi que o cansaço da redação não pode servir de desculpa para adiar as leituras, e tento ler pelo menos uma hora por dia, antes de dormir; e nos fins de semana. Tenho lido poucos contemporâneos; dos mais conhecidos, os mais recentes foram Marçal Aquino, Bernardo Carvalho (que não terminei) e os contos do Dicionário amoroso da língua portuguesa, coletânea organizada pelo Moutinho que tem meu amigo Fernando Molica entre os autores. A Marta, minha mulher, acaba me “assessorando” em autores brasileiros contemporâneos. Por exemplo, ela acha que tenho de ler o Leite derramado, do Chico. Está na mesinha ao lado da cama. O livro, não o Chico, graças a Deus.

Acabo me esforçando mais para não deixar acumular na cabeceira os livros dos amigos, como o Biajoni, de quem acabei de ler o romance que, por coincidência, tem o mesmo nome impublicável do conto do Molica, e ambos falam, bem, de coisas muito diferentes. Também passei a ler os outros autores do prêmio Sesc, como a Lúcia Bettencourt e a Eugênia Zerbini.

Mas minha prioridade tem sido para os autores, velhos e novos, da literatura latino-americana de língua espanhola, que vergonhosamente conhecemos pouco, e são fundamentais. Voltei de minha última viagem ao Paraguai com um livro da maravilhosa colombiana Laura Restrepo, Demasiado heroes, que deveria ser traduzido logo; em uma viagem anterior à Argentina comprei o argentino Manuel Mujica Lainez, que ando lendo, e vários livros que já li, entre eles um de artigos do Arlt e o Llamadas telefonicas, do Bolaño, que tem, entre vários contos magníficos, um especial, sobre autores que se dedicam a enviar contos a concursos literários…


Fugindo das letras. Blogosfera. Ou melhor, novas mídias versus velhas. Elogiando a escolha de Pedro Doria para a direção de conteúdo do site do Estadão, você diz que ele “conhece jornalismo o bastante para não embarcar nas utopias triunfalistas que preveem uma decadência irremediável das empresas de comunicação e a emergência de um socialismo informativo de qualidade inquestionável acima de tudo e todos”. Você é um blogueiro assíduo e, se não estou enganado, um assíduo leitor de blogs. Então, dessa posição de jornalista da “velha escola” e blogueiro, você arriscaria fazer alguma previsão para o futuro das comunicações?
Leio os blogues menos do que gostaria, mas sou assíduo, sim, Daniel. Eu acho que os blogues – e quem os substituir, seja o Twitter ou outras plataformas do gênero – trazem vários elementos novos ao jornalismo e à escrita, de um modo geral. Um deles é o poder de democratizar a produção e a divulgação de textos. O Umberto Eco falou disso em um debate: quase qualquer um pode criar e espalhar textos pelo mundo como nunca antes, e isso é muito bom. Ou muito mal, depende do blogue que você está lendo.

Outro elemento é o maior poder conferido aos internautas para reagir aos fatos políticos (as notícias entre eles) e agregar aliados, eventualmente coordenando ações. É a chamada democratização da informação, desde seu conhecimento à sua produção mesmo. E isso serve de freio à grande mídia em sua tentação de ser uma interpretação totalizante e definitiva dos fatos. Além de permitir à sociedade tomar decisões e agir independentemente do que a mídia julga mais importante em sua escala particular de valores. Isso é excelente, e pode contribuir inclusive para melhorar a qualidade dos produtos das empresa de comunicação.

Mas é ilusão pensar que blogues ou redes de relacionamento substituirão a empresa jornalística. Conviverão, alimentarão um ao outro, entrarão em contradição. Vai sempre haver empregado de jornal achando que é blogueiro e blogueiro pensando ser jornalista. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, ou talvez seja o contrário.

Os jornais (portais jornalísticos, emissoras), quando não perdem o rumo e manipulam indevidamente as informações, têm como princípio buscar o público mais amplo possível, o espectro político mais abrangente, a difícil imparcialidade. Mal comparando, seriam, se bem sucedidos, próximos da praça da Pólis grega, onde os cidadãos se encontram para saber o que acontece e discutir o que fazer. É o que justifica os jornais e lhes garante a sobrevivência e prestígio. Em sociedades onde é grande o público leitor e há uma grande clivagem ideológica ou partidária, é até possível que essa mídia empresarial opte por um dos lados dessa praça, e busque atender aos interesses de apenas uma parcela da população – como é o caso dos jornais conservadores e os progressistas nos EUA, por exemplo, ainda que liberais e direita lá tenham mais pontos de contato do que acreditam eles mesmos (basta ver a covardia da imprensa liberal no início da Guerra do Iraque).

Isso não é o que considero o futuro ideal, é o que acho provável. Jornalismo de verdade exige tempo, disponibilidade e dinheiro, dinheiro mesmo. Até sonho com um esforço coletivo que compense esses ativos e permita um noticiário cidadão baseado exclusivamente no voluntariado e articulação das pessoas conectadas à rede mundial de computadores. Mas não vejo isso acontecendo no futuro visível.

Creio mais na existência de empresas, grandes e pequenas, em caráter puramente empresarial ou como cooperativas, que produzirão plataformas de disseminação de informações, de maneira organizada e com uma estrutura mais próxima da empresa – ainda que num modelo cooperativo – capitalista que da organização partidária.

Essas novas plataformas de informação serão bem mais interativas do que os meios atuais de comunicação, abrindo mais espaço ao público, que também participará como provedor de notícias e análises. Farão uso dos mecanismos existentes e por inventar, de redes sociais, troca de mensagens e captação e organização de dados. Mas sempre terão um núcleo organizador, com poder sobre o destino da própria plataforma e controle final sobre os resultados (se até a Wikipedia tem um comitê central todo poderoso…).


Com tantos anos de Rio e tantos anos de Brasília, te pergunto: onde tem mais mentira?
Um amigo disse que, com esse título, o Mentiras do Rio prometia ser o primeiro de uma longa série, que teria mentiras de Brasília, de São Paulo, do Ceará e, num cartapácio de centenas de páginas, o Mentiras do Maranhão. E isso foi antes desse negócio todo com o Sarney. Brasília é uma cidade curiosa, reflexo do Brasil e com as mazelas de toda capital, um certo descolamento da vida real. Mas também é uma cidade com a própria população e, juro, essa não rouba. Nem todos. Ainda é no Rio que há o maior número absoluto de funcionários públicos do país, embora em Brasília eles sejam a maioria da população da cidade. Isso para quem acha que o governo é a maior fonte de mentiras para os cidadãos – quem não conhece o funcionamento de uma grande empresa, digo. Onde houver uma pessoa, haverá aí várias mentiras, de todos os gêneros, então tem mais mentira onde tem mais gente, ponto para o Rio.

Escolhi esse título para o livro por uma multidão de razões. A mais óbvia é que, afinal, é um livro de ficção (uma espécie de mentira, para o Houaiss e o Aurélio). Mas também é um livro que fala das aparências das coisas e dos textos, das falsas certezas, dessa ideia pós-moderna de que as identidades estão sempre se refazendo e mudando, de que o que é verdade hoje amanhã não serve mais, de que sempre é possível uma interpretação que inverta o modo de se entender as coisas.

 
::: Mentiras do Rio ::: Sergio Leo ::: Record, 2009, 144 páginas :::
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[ foto do autor por Miguel Pereira ]

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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