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Chutaram a Líbia fora da Primavera

por Daniel Lopes (24/08/2011)

A origem dos investimentos na Líbia é mais importante do que o regime que os líbios têm que suportar?

por Daniel Lopes

Na charge progressista acima, de Latuff, o rebelde líbio é retratado como um autômato com alto nível de imbecilidade. Por quê? O que o diferiria substancialmente de um opositor de Mubarak? Claro, ele aceitou de bom grado o papel da OTAN na operação contra Kadafi. Que babaca. Acho apenas que faltou nesse desenho, onde coube até uma barbicha, pelo menos uns botões do Catar e dos Emirados Árabes na farda do brutamontes ocidental, mas tudo bem, não sou crítico de arte.

A torcida contra a Líbia deve ter noção do ridículo e parar de apontar para as incertezas que rondam o futuro do país pós-Kadafi como o fator mais relevante do momento – em que opositores ainda encontram resistência de indivíduos leais ao regime. Por acaso esses especialistas têm alguma certeza sobre o futuro do Egito pós-ditadura? Ou da Tunísia? Nem por isso eles tentaram jogar água fria nos opositores dessas duas ditaduras vibrando em praças públicas. Pelo contrário, pipocaram imagens do êxtase popular. Por acaso a queda das ditaduras no Iêmen e na Síria será certeza de democracia funcional em poucos meses?

A situação do país norte-africano me parecia clara. Chance de democracia e melhor distribuição da renda advinda do petróleo em uma Líbia comandada por Kadafi e filhos: nenhuma. Chance de democracia e melhor distribuição da renda advinda do petróleo em uma Líbia pós-Kadafi: alguma. Os principais responsáveis pelo sucesso ou fracasso no pós-Kadafi serão os líbios, que a despeito do que os chargistas progressistas possam imaginar, não são bonecos de fantoche.

Mas, você pergunta, não é verdade que na Líbia pós-Kadafi as empresas dos países envolvidos na intervenção terão mais chance de serem bem sucedidas do que as empresas estrangeiras que tinham acordos com a ditadura? Pode ser – embora os líderes da revolta líbia já disseram que não aceitarão ser satélite do Ocidente, e duvido que alienarão Rússia e China completamente. Mas mesmo que fossem alienar: você não trocaria uma ditadura em que empresas estrangeiras lucram por uma democracia em que empresas estrangeiras lucram? A Líbia precisa de investimento externo. A origem desse investimento é mais importante para você do que o sistema político sob o qual a população terá que viver?

Na Carta Capital, Antonio Costa — que, pouco antes do Conselho de Segurança autorizar a intervenção, estava mais preocupado com uma possível ação imperialista do que com o que poderia acontecer aos homens e mulheres de Bengazi se os mercenários de Kadafi entrassem em suas ruas e casas, questão à qual ele e outros não dedicaram nem uma única linha — escreve agora, quando a intervenção da OTAN e de países árabes teve considerável sucesso em proteger civis e embalar a campanha popular anti-Kadafi, nos alertando para o fato da eventual queda de Trípoli ter menos a ver com a “primavera árabe” (as aspas são dele, porque agora essaporra já perdeu a graça) do que com uma suposta “nova guerra fria” do Ocidente contra os BRICS.

Em relação à queda de Kadafi não ter muito a ver com a Primavera Árabe, os líbios que perderam familiares e amigos na luta contra o ditador agradecem, mas se reservam o direito de desprezar os que pensam assim, e esse pelo menos é um direito que ninguém conseguirá lhes negar. Quanto aos BRICS, eu não sabia que já formavam um país. O Antonio está preocupado com o fato dos rebeldes terem dado indícios de que no futuro punirão estatais chinesas, russas e brasileiras. Meu caro concidadão: o nível de investimento brasileiro na Líbia de Kadafi justificaria sua torcida pelo regime? Não, e nem para o jornalista, por isso que ele põe nossos interesses junto aos de russos e chineses, que devem perder bem mais na Líbia pós-Kadafi, mas eu não vejo por que não deveria me lixar.

BRICS é um acrônimo para designar alguns dos países que mais puxam o crescimento econômico mundial, mas seus membros têm entre si tantas semelhanças político-culturais e interesses econômicos comuns quanto os que existem entre cada um de seus membros e diversos outros países. Se os EUA adotarem uma política de taxação para ferir ainda mais as importações agrícolas brasileiras, mas que deixe passar produtos baratos da China, isso será muito ruim para nós, mas não vislumbro o glorioso Congresso chinês montando uma comissão para tentar resolver o problema. Os BRICS têm sua importância enquanto grupo, assim como as “relações Sul-Sul”, mas é melhor não fetichizar essas coisas.

Seja como for, o artigo da Carta encerra de forma bastante esperançosa (será que só eu vejo mais torcida do que análise aqui?). É que não é certo se os imperialistas consolidarão “sua” vitória: “O Afeganistão e o Iraque mostraram que uma invasão bem-sucedida é apenas o começo de uma longa dor de cabeça” (no caso da Líbia, se referindo com “invasão” provavelmente à entrada de armas vindas do Catar). Quer dizer, isso é boa notícia, menos para os líbios. Mas qual é o progressista que acha o destino do povo líbio mais importante do que o fracasso das manobras imperialistas? Ainda mais em um ambiente de Guerra Fria em que o Brasil esteja vitalmente envolvido.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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