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No romance de Damon Galgut, o mundo dos negócios e o mundo das relações pessoais estão cheios de insinceridades

por Daniel Lopes

-- "O impostor", de Damon Galgut --

 

A quantidade de bons livros de autores africanos contemporâneos é impressionante. Acho que no futuro historiadores da literatura escreverão capítulos especiais sobre como a literatura africana deu gás novo a essa arte global. Em parte, sem dúvida, a boa safra se deve ao que o continente-mãe tem de diverso e conflituoso. Mas sabemos que é possível escrever porcarias sobre situações conflituosas (pode-se ter certeza que um bloco de papéis encadernado não vale muita coisa quando o melhor aspecto que o editor encontrou para destacar na orelha é que trata-se de um volume “engajado”) e obras-primas sobre um cotidiano em que aparentemente nada acontece, de modo que o prodígio literário africano realmente se deve aos homens e mulheres responsáveis pelas bem traçadas. Só temos a agradecer que esses autores venham encontrando espaço no circuito literário global.

Aqui no Brasil, somos mais familiarizados com os autores africanos de língua portuguesa – no Amálgama, Sandro Brincher elaborou uma relação de dez obras que considera fundamentais. Entre os de língua inglesa, sobressaem entre nós nomes como J.M. Coetzee, Nadine Gordimer e Chinua Achebe – no Amálgama, Marilia Bandeira e Divanize Carbonieri fizeram sua lista de indispensáveis. Isso é apenas a ponta do iceberg. Há diversos outros autores de língua inglesa que precisamos descobrir, para não falar dos de língua francesa (como a argelina Assia Djebar e a senegalesa Mariama Bâ) e, claro, os de língua nativa.

Damon Galgut é um nome relativamente novo vindo da África do Sul. Nascido em 1963, tem sete ficções publicadas, estreando aos 17 anos com A sinless season, mas ganhando notoriedade bem mais recentemente. Dois de seus romances estão disponíveis no Brasil: O bom médico (2005) e, agora, O impostor. Este segundo não é o melhor de seus livros. Obra sem muito fôlego, talvez tivesse tido mais sucesso se centrado em menos personagens, aprofundando-os com mais dedicação. E seu desfecho é menos que genial. Ainda assim, consegue ser um livro que soma bastante à bibliografia de Galgut.

Seu protagonista é Adam Napier, homem branco de meia idade e divorciado. Após perder um bom emprego para um negro mais novo, ascendente devido ao sistema de cotas raciais pós-apartheid, Adam passa um período na Cidade do Cabo, na casa do irmão Gavin, que amealhou alguma fortuna no ramo da construção civil, e da esposa Charmaine. Então decide ir para uma pequena casa abandonada que o irmão adquirira tempos atrás na região do Karoo. Quer se isolar nesta casa para retomar seu hobby de poeta, que ele fantasia ser ser verdadeiro ofício. Publicara um livro de poemas duas décadas atrás, e depois mais nada.

Adam fica em uma cidadezinha “em que sempre era tarde de domingo”. Na casa, imunda devido ao abandono de anos, tem apenas a companhia de sua voz interior – que, como toda voz interior, sabe ser o juiz mais severo de um sujeito. Na casa ao lado, ligeiramente melhor que a sua, habita um fantasma do passado da África do Sul, um misterioso homem branco – um dos personagens que Galgut infelizmente não explora com mais empenho.

Os dias passam e Adam não consegue escrever seus versos. E então as coisas tomam um rumo estranho. Em frente a uma loja de produtos agrícolas, Adam é surpreendido por um homem branco mais ou menos de sua idade, que se apresenta como Canning e lhe aborda pelo apelido de infância, “Fralda”. Canning diz que foram grandes amigos no colégio, e aparentemente sabe um bocado sobre Adam, inclusive revelando ter lido e “adorado” seu solitário livro de poemas. Adam se vê na situação ridícula em que muitos de nós já nos encontramos, ao topar com alguém que nos conhece de tempos passados sem que tenhamos a menor ideia de quem diabos seja. Adam não confessa que não lembra de Canning. Ao invés disso, finge que o reconhece. Cunning é bem de vida, tem uma grande fazenda há poucas horas de onde Adam está alojado. Logo, Adam estará passando os finais de semana com Cunning e sua atraente esposa, a negra Baby.

Talvez seja inevitável comparar o livro de Galgut com Desonra, obra máxima de seu conterrâneo Coetzee. Em ambos nos deparamos com personagens em apuros na tentativa de focar nas artes clássicas em meio a um período de conturbadas relações sociais e de celebração do arrivismo – se Adam Napier quer escrever poemas naturalísticos, o professor de literatura romântica David Lurie em Desonra peleja para escrever um livro sobre Byron. Ambos os personagens vão se refugiar em áreas da África do Sul profunda (Adam na casa do irmão, David na casa da filha), após se verem atingidos por ondas politicamente corretas nos centros urbanos – Adam perde o emprego em Joanesburgo para um cotista negro, David perde o emprego na Cidade do Cabo após membros de sua universidade ficarem chocados com o fato de ter consensualmente mantido relação sexual com uma aluna. Os personagens se dividem entre o orgulho e o sentimento de culpa por tentarem se afastar do político para se dedicar ao estético – de Adam, Galgut escreve que “quando observava o estado do mundo, sempre acabava se retraindo por sentir-se desamparado, horrorizado; parecia quase um dever, uma obrigação artística, substituir a política pela estética. O fato de sua vida ser destituída de protestos às vezes era redentor; mas outras vezes – como agora – era motivo de culpa.”

Por fim, claro, a almejada fuga dos protagonistas é um fracasso nos dois livros – a realidade tem braços longos e os alcança sem piedade; no caso de Coetzee, a impiedade se traduz na violação de seres humanos, em Galgut, na violação da terra. Sim, porque Canning, o suposto amigo de infância de Adam, transformará as enormes propriedades que herdou do pai, ricas em fauna e flora, em ponto turístico – hotel e campos de golfe. A jogada envolve uma série de falcatruas, como dinheiro por baixo dos panos para a aprovação de licenças ambientais, falcatruas nas quais Adam em breve se verá enredado contra a vontade.

O desenvolvimento a qualquer custo da África do Sul pós-apartheid, conforme mostrada por Damon Galgut, põe a seu serviço, para correr de forma mais macia, as novas relações sociais do país. Talvez inevitavelmente. Se para tocar seu projeto adiante Canning utiliza de um parceiro negro zulu, um dos diretores da empresa de construção de Gavin, que também não sobrevive sem alguns jeitinhos, é um negro, o que segundo Gavin dá prestígio à firma.

E a poesia, em meio a isso tudo? Ela e seu amante Adam têm pouco cacife tanto junto ao Gavin homem-de-negócios quanto junto ao prefeito-ativista da cidadezinha em que Adam busca refúgio. Ela não dependeria do bom juízo de nenhum deles para brotar, mas o fato é que não brota. Adam passa mais tempo se dedicando a Baby, a beldade negra de Canning, e combatendo as ervas daninhas de seu próprio quintal. Das duas atividades, extrai genuína satisfação.

Essa se torna, durante a semana, sua única e obsessiva preocupação. A cada dia ele chega um pouco mais longe, fazendo retroceder a fronteira em alguns passos. Descobre todo tipo de objeto perdido e abandonado no meio do mato. Uma boneca de plástico, um guarda-sol rasgado. Pedaços e peças de um motor. Empilha-os perto de casa, como velhos artefatos resgatados do fundo do mar. Insiste nessa tarefa solitária e autoimposta mesmo não havendo ninguém para julgá-lo ou condecorá-lo, mesmo sabendo que não haverá recompensa quando terminar.

(Talvez alguma semelhança, afinal de contas, com a sorte do fazer poético na África do Sul.)

De fato, a poesia natural que Adam não consegue pôr no papel é Galgut quem o faz, gravando na prosa, em belas imagens, alguns pensamentos de seu personagem. Após o vizinho fantasma pôr o enferrujado moinho no quintal de Adam para funcionar,

Uma emoção toma conta de Adam, desproporcional em relação à cena. É bom ver esse trabalho bem sucedido com os elementos naturais. Essa transparência pura puxada de baixo da terra pela força do vento – parece alguma mágica. Embora não tenha feito pessoalmente o trabalho, sente-se mais próximo do mundo.
(…)
A noite inteira ele ouve a água fluindo para o tanque. Imagina que pode ser a mesma água em que nadou dias antes. É possível que tenha viajado pelo campo, depois escoado pelo solo no fundo do rio para cair em algum lençol freático, do qual o moinho a teria sugado.

Esse estado de espírito fará com que Adam se indigne com o projeto de violação do espaço natural que Canning pretende levar a cabo. Isso e também seu lado moralizante, que aqui acolá resplandece de sua indignação com a nova realidade comercial da África do Sul. O que não deixa de ser curioso, porque mais tarde, quando ardentemente tomado de paixão por Baby, será acometido de uma ganância mais insidiosa do que a ganância monetária. É quando, diante da perspectiva de um mundo sem Cunning, o vemos raciocinando que “pessoas são massacradas aos milhares, por todo o planeta, todos os dias; a história da raça humana é uma história de sangue. (…) Tanto sangue, um rio inteiro, fluindo eternamente: que diferença fariam algumas gotas a mais?”.

::: O impostor ::: Damon Galgut (trad. Julián Fuks) ::: Record, 2011, 272 páginas :::
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Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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