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Blogs e letras: entrevista com Fal Azevedo

por Daniel Lopes (07/10/2008)

a Daniel Lopes – A escritora paulista Fal Azevedo acaba de lançar novo livro, o romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite (Rocco, 2008), onde nos apresenta Alma, uma artista na casa dos quarenta anos que, imersa em correspondências, reconstrói momentos marcantes de seu passado. Blogueira, sempre ligada na rede, a também tradutora, professora […]

[foto: Divulgação]a Daniel Lopes – A escritora paulista Fal Azevedo acaba de lançar novo livro, o romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite (Rocco, 2008), onde nos apresenta Alma, uma artista na casa dos quarenta anos que, imersa em correspondências, reconstrói momentos marcantes de seu passado. Blogueira, sempre ligada na rede, a também tradutora, professora e fã de bichos de estimação Fal Azevedo gentilmente abriu espaço em sua caixa postal para umas poucas perguntas do Amálgama sobre seus livros e influências, a internet e os caminhos para um escritor iniciante.

 

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AmálgamaEu sei que todo escritor e escritora diz que em seus personagens sempre acaba saindo alguma coisa de autobiográfico, mas eu gostaria de saber, se não se importa, das semelhanças entre você e sua personagem Alma, do Minúsculos assassinatos. Por exemplo: vi na orelha do livro a informação que você “se acha dona de um cachorro e seis gatos”; Alma também têm os seus. Há ago mais entre vocês duas que você possa identificar assim de cara?
Fal Azevedo – Ih, Dani, de um tudo. Temos a semelhança na perfumaria, gostar de bicho, amar comida, ter essa intensa vida social virtual e essa zero vida social vivil, aquilo tudo. Mas tem também todo este questionamento, esta passação de vida a limpo, isso é muito meu. Essa dor, essa infelicidade atávica, isso me pertence. A dor da Alma é toda minha.


A construção do livro é meio caótica, entremeada de cartas e e-mails, com várias vozes… Obviamente, na já longínqua era pré-internet também haviam romances epistolares, romances com múltiplas vozes, mas, em seu caso, você diria que isso se deve à sua experiência com a internet, mais em especial com a blogosfera? Você é uma blogueira inveterada, não?
Eu tenho dois caminhos na escrita. O primeiro se deu antes de eu ter blog, antes de eu sequer saber que os blogs existiam. Eu escrevi meu primiero livro em 1998, e já nesse tempo eu usava essa linguagem fragmentada, escrevia textos curtos, fazia esses continhos de poucas linhas. Eu caí na internet em 1997, mas não soube dos blogs até, uia, 2002. E daí eu me achei. Era isso que eu nem sabia que queria. E aí meu segundo caminho começou. Eu me adaptei tão bem nesse meio, porque eu já escrevia assim. Eu só fui me ajeitando, ficando mais espertinha, aprendendo os macetes. Tenho o maior orgulho de ser cria da internet, de ser blogueira, de fazer disso um caminho. Nosso meio é a internet, são os blogs. Outras gerações tinham como ninho o folhetim, os saraus, as redações de jornal, as agência publicitárias. As histórias têm que ser contadas, onde elas serão contadas e como varia, mas o maravilhoso é que elas sejam contadas. Nós contamos, também, nos nossos blogs. Eu acho isso o máximo.


Há estudiosos que afirmam haver perda da capacidade de concentração na leitura de romances complexos – digamos, um Guerra e paz – por parte de indivíduos já irremediavelmente imersos na net. Você dá bola pra eles?
Ih, eu não sei. Eu cresci lendo muito, eu li muito a vida toda eu ainda leio pelo menos um livro a cada 5, 6 dias. Então eu não noto perda nenhuma de concentração. Mas eu não sou estudiosa e nem tenho acesso a essas pesquisas. De qualquer forma, eu acho que há que se ler. Sempre, muito. Mas sabe o que, né? Quem gosta de ler e sabe ler pelo amor de deus, vai continar lendo Guerra e Paz (eu não, eu leio Moby Dick) muito bem, obrigado, a vida toda. Eu passo o dia todo com o nariz enfiado no computador e leio de um tudo também, no papel. Isso me cheira a desculpa de quem não gosta de ler. Do ‘é culpa do computador’ pro ‘o cachorro comeu minha lição’ é um pulo.


Me fala das tuas influências literárias. Queria que você aproveitasse o embalo não apenas para falar dos clássicos brasileiros e universais, mas também dos contemporâneos – o que a Fal Azevedo não deixaria de fora de um roteiro de leitura para alguém interessado no que se escreve de bom hoje em dia?
Érico Verissimo. Eu ando sempre com um volume do Tempo e o Vento, como algumas pessoas andam com a Bíblia. Érico Verissimo todos os dias, até o fim da minha vida, amém. Depois, Eça de Queiroz. Genial. Melville – em especial Moby Dick; esse livro serve de metáfora pra qualquer coisa na vida. O Melville sabia das coisas, é craque em construção psicológica, todo mundo tem que ler, mas escritores especialmente.

Depois, tem uma mulher chamada Erma Bombeck, uma americana. Idiotamente não se publicou Bombeck no Brasil. Tem um livro dela só publicado em português. Seu humor é sensacional, perfeito, burilado, malvado, ela é maravilhosa. Cito também Stanislaw Ponte Preta, já que falamos de humor genial. E na poesia, Quintana, porque há que haver o belo que flutua, e Cesário Verde, porque há que haver o belo que dói.

Agoras os vivos: Luis Fernando Verissimo. Ah!, eu gosto do humor, da cadência, do narrador do Verissimo – eu creio no poder sobrenatural do narrador. Narrador é tudo na história e o Verissmo faz narradores geniais.

Eduardo Almeida Reis. É isso que eu quero ser quando eu crescer. Quando eu crescer, eu quero ser ele. Ele é muito, muito, muito culto, sem ser babaca ou esnobe ou metido. Engraçado. Mas muito engraçado, aquele humor malvado. Ele escreve no Estado de Minas (com uma linguagem e uma estrutura totalmente blogueiras, apesar de nunca ter tido um blog) e tem um monte de livros publicados. De cabeça eu cito o Amor sincero custa caro (olha que nome genial), que foi o primeiro livro que li dele pra nunca mais me desapaixonar. Tudo que ele escreve é sempre novo, cada crônica dele que você lê você se surpreende e se encanta. É amor pra vida toda e mais seis meses.

Biajoni. O Bia escreve aqui pra vocês, coisa que me fez confiar no site imediatamente. O Bia é a melhor voz dessa geração, o melhor olho. O Bia é malvado – eu gosto de gente malvada. O Bia tem um humor impecável e um narrador furibundo. Eu gosto das histórias do Bia, da seqüência de pensamento dele, você lê confiando o narrador, é tão importante confiar no narrador. O do Bia é mau, mas é confiável, é como aquele teu primo porra louca, que você sabe que tá sempre doidão, mas que você também sabe que jamais vai te colocar em encrenca. Bebê ideal seria um filhinho do Bia com o André Dahmer, será que eles não querem encomendar um?

O Dahmer é cartunista abissalmente bom, já que falamos dele. É o cara que desenha que eu mais amo. É mau e exato, a crítica dele é muuuito boa, a mão dele é sensacional, eu adoro o que ele faz com o traço, como ele comunica. Você ama, você se indigna, você se apaixona, você fica puto – tudo isso em três quadradinhos. Eu digo isso e um dia os metidinhos de universidade vão roubar minha idéia, mas eu não ligo: somos todos (até mesmo eu, que sou mais velhinha que vocês todos, meus sobrinhos) da geração Dhamer.

E, tem blogueiro, sempre. Eu leio blog com atenção, com inveja, todo santo dia. E, assim como os escritores, esses caras me influenciam. Eu vou na cola deles.

Inagaki – o Ina é o Sumo Sacerdote do mondo blog, nosso arauto, nosso samurai, nosso mestre, nosso tudo. A gente não lê, venera, a gente não adiciona, a gente aceita como nosso Senhor e Salvador, a gente não repete o que ele diz, a gente professa a fé. Nelsim – o melhor texto da rede, de longe, de muito, muito longe. O melhor humor, também. O blog dele é cheio de crônicas e contos curtos. Até comentando que escovou os dentes, Nelsim faz literatura. Idelber – esse nêgo é um pensador, um professor, um grande escritor… e dá a maior colher de chá do planeta terra tendo blog. Gigio – crônicas linda, líricas, um trabalho belíssimo, o blog dele é um poema. Eu vou lá todo santo dia. Cynthia – humor. Não humor de mulher, entenda. Humor. Com cultura, com maldade, hehe. Eu sempre vou ver o que é que a Cyn acha, pra achar também. Zel – referência do mondo blog, um texto bem humorado, sapeca, meio bravinho de vez em quando, uma delícia. Esther – uma grande jornalista. Assim, das boas. Ela é séria pra caramba, e quando fica indignada (o que, neste país, quer dizer todo dia), fica engraçadíssima, mesmo sendo séria.

Ana Laura – jornalista, tem um olho muito lírico, muito leve pra ver a vida, sabe? Tem texto dela que eleva a curva glicêmica, e também é muito engraçada. Telinha – blog de uma pernambucana que mora há quase 10 anos no Rio. O blog dela é total “that´s my life”, como o meu, mas ao contrário do meu, o blog dela é feito por uma criatura doce, gentil, meiga. É de enternecer. Acho que a Tela é a única pessoa não-malvada do mundo que eu gosto. Jorge – esse mineiro me deixa completamente maluca. Ele é muito, muito, muito culto e escreve bem, e mesmo com humor, umas coisas muito sérias, altas discussões no blog dele. Eu não vou dizer que entendo tudo o que ele fala, porque, sério, ele tá muito acima de mim. Mas eu adoro o que entendo. E nem comento lá, porque deus me livre. Eu nem sei o que dizer.

Duas Fridas – essas duas meninas vivem o mundo de hoje, no mundo de hoje. As influências delas são muito pop, muito atuais, eu odeeeio essa palavra, mas elas são antenadas. Elas explicam os dias de hoje pros imbecis do século XIX que nem eu. Arnaldão – outro cartunista. Podre de engraçado. Uma das personagens dele, o Capitão Presença, era o super herói favorito do meu marido, o Alexandre rolava de rir com ele. Eu tenho um banner no Arnaldo no meu blog, amo, amo, amo. Serjones – o melhor. Ele é uma aula de fazer blog. Além de despencar de charme. E é mau. Muito mau.

Esses caras me influenciam. Eles influenciam o que eu penso, o que eu escrevo – e como eu escrevo. Eu leio os blogueiros todo dia.


Você já havia publicado dois outros livros antes do Minúsculos assassinatos – que é seu primeiro lançamento por uma grande editora. Do que tratam, e como você os vê em relação a esse romance mais recente?
Os dois primeiros, Crônicas de quase amor e O nome da cousa – os maiores encalhes do Ocidente – foram um ensaio, eu acho. Tá tudo lá, de texto de fôlego curto, as personagens tiradas da vida real, o ridículo da vida real – da minha, da minha -, o choro no chuveiro, o elevador que não vem, a vida que vem a toda hora. Ambos têm crônica e histórias curtas, curtinhas, 5 ou 6 linhas, que mesmo antes do blog eu já chamava de drops.


Esses dois anteriores foram edições bancadas por você. Então, não tem razão quem diz que edições de autor é um jeito fácil de se perder dinheiro e não ser lido? Suponhamos que esteja lendo esta entrevista um moço que acabou de pôr o ponto final em seu primeiro romance. Você o aconselharia a passar alguns anos enviando o texto para editoras ou partir logo para uma edição própria?
Dani, tem toda razão quem diz que edição bancada pelo autor é roubada. Eu é que fui cabeçuda. É caro, encalha, e todos os seus amigos fofos que dizem “faz sim que eu compro”, na hora H somem – e tão certos, ninguém neste mundo tem obrigação de bancar o seu sonho. Mas o fato é que você acaba pagando a editora em suaves prestações mensais por meses e meses a fio, e com a sua casa (e a de um ou outro amigo com vocação pra santo) cheia de caixas de livro encalhado. O Crônicas de quase amor graças a Deus acabou, mas O nome da cousa tem às pencas aqui, e eu aproveito este momento solene de civismo e amor pátrio para declarar que é baratinho e estamos aí.

Não, não aconselho ninguém a bancar a própria edição. Jamais. O que eu recomendo para todo mundo que quer lançar livro é o que deu certo comigo: mantenham seus blogs bonitos, bem feitinhos, com textos engraçados, tratem muito bem seus leitores, atualizem todo dia. A Rocco me achou através do meu blog. Mande original para as editoras, claro, mas invista em seu blog. E pelo amor de deus, não envie e-mail para todo mundo de sua lista cada vez que atualizar blog: é patético e a gente toma birra, não vai de propósito, só pra você deixar de ser chato. Cuide bem do seu blog, mime seus leitores e deixe correr solto. Ah, como é fácil falar, né?, hehehe.


Você também é tradutora. O que traduziu ou traduz? São autores que têm muito a ver com você e seu estilo de escrita, ou é só para ajudar a ganhar a vida mesmo?
Durante muitos anos eu traduzir teses e manuais de instrução. De um ano para cá comecei a traduzir literatura. Fiz vários e estou adorando. Meu preferido foi o Heartburn, da Nora Eprhon (no prelo). É uma coisa que eu amo fazer. E sim, é um jeito de pagar as contas também, por que não? Contas pagas com dinheiro ganho com alegria são mais felizinhas, eu acho. É um jeito maravilhoso de pagar as contas.


E o próximo livro, sai quando? Dá pra adiantar pra gente um pouco da trama, o título…?
Dani, o próximo é um diário. Uma mulher que conta, durante um ano, a vida dela para alguém. Ele não tem nome ainda. Quem sabe ele sai ano que vem? Vamos torcer, né?

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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