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Em anos mais recentes, o embaraço de Salman Rushdie passou a ser o mesmo de inúmeros indivíduos

“Joseph Anton (memórias)”, de Salman Rushdie

1.

Christopher Hitchens, em suas memórias, definiu a fatwa do aiatolá Khomeini contra seu amigo o escritor indiano Salman Rushdie com a precisão e contundência que lhe eram características: “O chefe teocrático de um despotismo estrangeiro oferece dinheiro em seu próprio nome para recompensar o assassinato de um morador civil de outro país, pela ofensa de ter escrito uma obra de ficção.” Foi isso. Mas como evasivas de todo tipo tomaram conta do cenário então, e como evasivas ainda surgem hoje em dia diante de ocorrências parecidas, a verdade a respeito da fatwa deve continuar sendo contada. E agora ela é contada pelo próprio Rushdie, em um volume de fôlego.

Ainda nos primeiros anos em que estava com a cabeça a prêmio, Rushdie chegou a pensar que “agora a vitória do Iluminismo parecia temporária, reversível”. Lembrei de outra passagem de Hitchens, desta vez em um dos textos reunidos em Arguably, em defesa de outra vítima do fascismo islâmico, Ayaan Hirsi Ali, cujo último volume de memórias eu tive o prazer de resenhar, e onde você pode encontrar alguns detalhes de suas lutas. O artigo de Hitchens é uma resposta a intelectuais progressistas (no caso, Timothy Garton Ash e Ian Buruma) e jornalistas covardes que, diante da batalha entre Hirsi Ali e seus opositores no campo do radicalismo religioso, preferem um meio termo, isso quando não acabam aderindo ao ponto de vista do pobre fanático vítima da exclusão social ocidental e de preconceitos orientalistas. Hitchens diz que os ataques velados ou nem tanto à figura de Hirsi Ali lembraram-lhe imediatamente do verso de Auden sobre 1939 – “The enlightenment driven away”.

A fatwa foi lançada pela ditadura iraniana em 1989. Ela veio em um contexto em que o regime precisava de algo para mobilizar as massas e mudar o foco de atenção do fracasso da guerra contra o Iraque, mas nem por isso foi um mero ato de propaganda. Por muitos anos, os iranianos, por meio de seus vários serviços, deram duro para localizar Rushdie no Reino Unido e então eliminá-lo. Uma força-tarefa foi montada no Ministério de Informações do país persa apenas com o objetivo de traçar planos para dar cabo do escritor blasfemo.

O pretexto para a fatwa foi o romance Os versos satânicos (1988), um livro multifacetado, com infinitas interpretações possíveis, mas que teve frases tiradas do contexto por “líderes” muçulmanos de vários países e interpretadas como um insulto a Alá e ao “bilhão-e-meio” de muçulmanos. Antes da fatwa, o livro já gerara protestos e fora proibido em Índia, Paquistão, Arábia Saudita e outros países; depois dela, claro, a situação piorou. Assim como em casos recentes – charges retratando Maomé em veículos europeus, filme tosco estadunidense insultando o islã –, houve quase nada de “indignação” antes que autoridades religiosas passassem a divulgar a peça como um insulto puro e simples, e passassem a alimentar e instrumentalizar o ódio de milhares de pessoas mundo afora, no que custaria a vida de algumas.

Por que importa ler em 2012 sobre o “affair Rushdie”? O que esse livro de memórias tem a oferecer de muito relevante para o leitor contemporâneo?

Bem, em primeiro lugar, a ameaça contra Rushdie permanece viva. No bojo das reações contra o filme amador A inocência dos muçulmanos, vimos o aiatolá Hassan Sanei afirmar que o filme sequer teria sido feito, se a fatwa contra Rushdie já tivesse sido cumprida; e o mesmo aiatolá, alguém próximo ao “Líder Supremo” e que no Irã trabalha com caridade, subiu o valor da cabeça de Rushdie para meio milhão de dólares. (Mais sobre Sanei, em Joseph Anton.)

Em segundo lugar, importa se inteirar o máximo possível do caso porque, se no começo dos anos 1990 a situação de Salman Rushdie era algo bastante peculiar, uma nota dissonante na grandiosa melodia do “fim da história”, em anos mais recentes, como notou Paul Berman, seu embaraço passou a ser o mesmo de inúmeros indivíduos que caíram nas desgraças de “líderes” e turbas religiosas, e que nem sempre contam com o apoio da intelectualidade ocidental. Esses indivíduos incluem Ayaan Hirsi Ali, de origem somaliana mas hoje vivendo confortavelmente nos Estados Unidos, e Malala Yusafzai, baleada na cabeça à queima-roupa por fanáticos no Paquistão.

“O maior perigo da crescente ameaça [islamita]”, escreve Rushdie, “era que homens de bem cometessem suicídio intelectual e chamassem isso de paz. Homens de bem cederem ao medo e chamar isso de respeito”. Ele próprio cometeu esse erro. Na situação sufocante em que vivia — em casas-esconderijo, com equipes de segurança 24 horas e sem poder se locomover sem autorização e planejamento prévio –, chegou um momento em que pensou que, se dobrasse um pouco suas convicções, se engolisse o amor próprio, se de alguma forma se retratasse pela “indignação” causada por seu livro, se, enfim, tentasse aplacar a ira iraniana, talvez a situação relaxasse aos poucos e ele pudesse deixar de ser Joseph Anton (nome fantasia adotado para não deixar rastros para os assassinos) e voltar ao papel de Salman Rushdie. Arriscou. Reuniu-se em Londres com paus-mandados dos iranianos e assinou uma declaração em que responsabilizava a si mesmo por parte dos problemas que levaram e se seguiram à fatwa.

Foi um erro enorme. Como a esse ato de contrição não se seguiu, como esperavam os paus-mandados de Teerã e os iranianos propriamente, mea culpas por parte de Rushdie; como, ao contrário, ele logo reafirmaria, ainda que de forma contida, sua defesa da liberdade de expressão e do direito de seu livro circular livremente, os mandatos contra sua vida logo foram reforçados. Para citar Hitchens novamente, Salman Rushdie, em um momento de desespero, tentou apaziguar gente com as quais viver em paz não é nem possível nem desejável.

2.

E quanto ao tratamento dispensado a Rushdie pela boa gente britânica?

Houve bastante decepção. Se a fatwa e os brados contra sua pessoa por parte de teocracias e fanáticos religiosos não eram surpreendentes, a reação de parte da elite britânica e de governos ocidentais o foi sem dúvida. Covardia foi uma palavra-chave. Pseudointelectualismo, travestido de discurso em defesa dos humilhados e ofendidos do terceiro mundo, outra. Também é bom ver essas duas forças negativas em ação, nas páginas de Joseph Anton, sabendo, como sabemos, que elas tomariam dimensões maiores diante dos ataques terroristas futuros a alvos ocidentais e orientais, cristãos, hindus, muçulmanos, judeus e seculares.

As tolices foram muitas, e partiram de todos os lados do espectro político. Aos olhos da direita, Rushdie há muito era visto como nada mais que um amigo da causa nicaraguense, contra os movimentos assassinos patrocinados pelo governo estadunidense; como um defensor do Estado palestino; como um crítico do governo Thatcher e simpatizante dos trabalhistas; e, para piorar tudo, um imigrante. Agora que ele “provocara uma grande religião”, que lidasse com seu problema, que era dele e de ninguém mais. O ministro do Exterior o difamou em plena cadeia nacional de televisão. Thatcher se solidarizou com os muçulmanos “indignados”. O Daily Mail, jornal direitista, foi o principal veículo dos insultos conservadores.

Enquanto isso, deputados oportunistas do Partido Trabalhista que representavam áreas com muitos eleitores muçulmanos fizeram o que políticos oportunistas sempre fazem: votos antes de princípios. Alguns trabalharam para que a edição em brochura dos Versos satânicos não visse a luz do dia na Grã-Bretanha (quando ela viu, foi inicialmente devido a uma edição importada dos EUA). Iqbal Sacranie, do Comitê de Ação sobre Assuntos Islâmicos, que de Rushdie afirmara que “a morte talvez seja um pouco fácil demais para ele”, contou com a solidariedade dos trabalhistas até bem recentemente, quando recebeu do governo Blair o título de cavaleiro. John Berger, Paul Giroy e outros intelectuais achavam que Rushdie, com sua “arrogância”, estava cavando a própria sepultura. O The Independent, jornal esquerdista, foi o principal veículo dos insultos progressistas.

Em um ponto avançado da narrativa em terceira pessoa de Joseph Anton, o escritor alvo dos insultos resolve simplesmente transformar os ataques oriundos do Daily Mail, Independent e outros em uma massa amorfa e pestilenta que sarcasticamente denomina Daily Insult.

– O autor –

Religiosos britânicos mainstream, religiosos globais, políticos iranianos “moderados”, árabes “seculares”… ninguém queria perder a oportunidade de se indignar com a vítima da fatwa. Robert Runcie, arcebispo da Cantuária, “compreendeu os sentimentos dos muçulmanos” — sempre tomados como um monólito condenado ao medievalismo. Seu sucessor no cargo, George Carey, disse que “devemos ser mais tolerantes com a ira muçulmana”. O cardeal de Nova York também compreendeu os sentimentos dos muçulmanos. E o papa. E o grande rabino da Grã-Bretanha. O alvo das maiores críticas de Rushdie, no entanto, é o abjeto Kalim Siddiqui. Este senhor, que seria modelo para “líderes” cheios de autocomiseração e nenhuma autocrítica dos anos seguintes, pregou tão desabusadamente o ódio contra Rushdie que talvez seu final não pudesse ter sido mais apropriado – ataque cardíaco durante uma conferência na África do Sul. Siddiqui raramente é referido pelo próprio nome em Joseph Anton, aparecendo mais como o “gnomo de jardim”.

A narrativa que essas pessoas tentaram construir a respeito de Rushdie é a de um sujeito arrogante, que nunca se desculpou o suficiente por ter contrariado sem querer fanáticos religiosos. “Ter princípios estava sendo reinterpretado como obstinação. A tentativa de manter a postura, de insistir que ele era a vítima e não o criminoso nesse grande engano, estava sendo tomada como arrogância.” Reféns britânicos do Hezbolá não eram liberados no Líbano? Rushdie tem culpa aí. Quanto estava custando de dinheiro do contribuinte para manter a segurança de Rushdie? (Quando o príncipe Charles certa vez reclamou desse suposto desperdício de dinheiro, Ian McEwan disse em uma entrevista que o príncipe custava muito mais, e nunca tinha escrito nada interessante.)

Apenas quando Rushdie viu o grande erro que fora sua tentativa de apaziguar os fanáticos, e resolveu se expor e falar mais, é que sua situação começou a mudar para melhor. Ele começou, junto com amigos, a fazer lobby mais duramente junto ao governo britânico e outros governos ocidentais para que pressionassem o Irã pela suspensão da fatwa. Resolveu sair correndo o mundo, aceitando convites para feiras, palestras e turnês de lançamento – sair, isto é, quando conseguisse alguma companhia aérea disposta a lhe transportar. No processo, fez sua voz mais ouvida, suas ideias mais divulgadas, sua causa mais valorizada, e mudou a opinião de mais de um interlocutor que, julgando apenas pelo que saía no Daily Insult, tinha dele uma opinião muito ruim.

Também indispensável nessa fase, como desde o início, foi o apoio de amigos. Amigos pessoais e amigos da causa – vamos de Hitchens de novo – da literatura, ironia, humor, indivíduo, liberdade de expressão, contra a causa da ditadura, religião, estupidez, demagogia, censura, bullying e da intimidação. Se, durante os anos mais duros do “affair”, sobrou gente como Jacques Derrida, Naguib Mahfouz (“Rushdie não tinha o direito de insultar coisa alguma, principalmente um profeta ou qualquer coisa considerada sagrada”) e John le Carré (“acho que não é dado a nenhum de nós ser impertinente com as grandes religiões e ficar impune”), também não faltou quem tomasse apaixonadamente a causa representada por Rushdie, gente que ia de simples livreiros que insistiam em dar aos leitores o direito de encontrar Os versos satânicos em suas prateleiras, apesar de ameaças de bomba, a escritores do calibre de J. M. Coetzee, que não achou que Rushdie devesse deixar de ir a um evento na África do Sul apenas porque isso podia “insultar” religiosos locais.

Rushdie é agradecido e generoso, e é delicioso encontrar nas páginas de suas memórias uma constelação de amigos que ia de Bono Vox a Václav Havel (primeiro chefe de estado a aderir sem reservas à sua causa). Nos Estados Unidos, Susan Sontag e Edward Said se destacaram. A feminista indiana Gita Sahgal e o romancista alemão Günter Grass chegaram junto. O francês Bernard-Henri Lévy também. Os britânicos Ian McEwan, Julian Barnes e Martin Amis, idem. Ah sim!, e Rowan Atkinson. Isso mesmo: na hora do vamos-ver, Mr. Bean se mostrou um homem de maiores princípios que Jack Straw ou o editor do Independent.

3.

Joseph Anton mescla a trajetória do “affair Rushdie” com passagens das vidas familiar e profissional do autor. As partes menos interessantes são as lavações de roupa com suas ex-esposas Marianne Wiggins e (principalmente) Elizabeth West. Não partes inúteis ou ruins (Rushdie de forma algum trata essas senhoras apenas em luz negativa), mas simplesmente menos interessantes. Infinitamente melhores são as partes sobre o germe intelectual de seus romances. Às vezes eles surgiam em um momento de eureka; mais comumente, surgiam como resultado da reorganização e encontro de histórias e estórias acumuladas ao longo do tempo na cabeça do autor. A Índia é sua paixão.

É imperativo prestar bastante atenção nas primeiras dezenas de páginas, porque é lá que encontramos alguns detalhes da criação do pequeno Rushdie. Seu pai, Anis, era profundamente interessado em religião, mas ao mesmo tempo um cultivador do ceticismo – “nada estava além dos limites. Não havia tabus. Tudo, mesmo as escrituras sagradas, podia ser investigado e, se possível, melhorado”. Seu interesse religioso tinha mais um caráter histórico. Traço que foi herdado pelo filho. Na universidade, Rushdie, embora ateu, pagou um curso opcional sobre Maomé e a ascensão do islã quando ninguém mais queria. Os próprios Versos satânicos podem ser encarados como fruto desse interesse, por leitores que não estejam predispostos a tocar o terror.

::: Joseph Anton :::
::: Salman Rushdie (trad. Donaldson M. Garschagen e José Rubens Siqueira) :::
::: Companhia das Letras, 2012, 616 páginas :::
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Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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