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Os alunos desocupados da USP e seus defensores são velhos conhecidos

por Daniel Lopes (09/11/2011)

Como uma medíocre minoria se transmuta, em certa mídia, em legítima representante da comunidade?

No final do ano passado, em outro lugar, eu fiz uma série de pequenos comentários sobre livros que haviam saído durante e a respeito do governo Lula. Na maioria, os livros tinham um julgamento negativo daquele que foi, em muitos aspectos, um dos melhores governos que o Brasil já teve. Um dos livros foi A era Lula, de Ipojuca Pontes, reunindo vários artigos e publicado em 2006. O subtítulo da obra é “Crônica de um desastre anunciado”, e a apresentação é de Olavo de Carvalho. Logo no segundo texto, originalmente de novembro de 2003, quando W. Bush já havia visto que Lula não apresentava qualquer perigo para a civilização ocidental, Ipojuca analisa os primeiros passos do governo petista e vê nuvens negras no horizonte. Digo, negras mesmode verdade: “A julgar pelas medidas que vêm sendo adotadas neste início de governo, qualquer semelhança entre os projetos totalitários acima discriminados e o perfil programático que norteia a gestão do Partido dos Trabalhadores pode passar de mera coincidência”. Os projetos discriminados acima são os projetos de Lenin, Mussolini e Hitler.

Não importava de qual ângulo você visse esse argumento, ele nunca se erguia além do nível de besteira. Mas, comentando sobre o livro do Ipojuca, eu observei que, embora as análises do autor não tivessem cabimento, elas pareciam indicar um forte desejo de que tivessem sim base na realidade. Escrevi que talvez, lá em 2003, um golpe totalitário petista fosse o que o nosso autor quisesse, para então ser preso, receber uns cascudos e ser enviado para o exílio nos Estados Unidos. Aí ele poderia ser visto como um Soljenítsin dos trópicos e lido em todo o mundo. Como as coisas se deram, no entanto, com o PT e seus aliados jogando o jogo democrático com relativo respeito pelas regras, Ipojuca Pontes se viu fadado a permanecer no Brasil e ter suas porcarias lidas apenas em seu país de origem.

Nos últimos dias, a depredação da reitoria da Universidade de São Paulo me forçou a encarar o outro lado do espectro político com a mesma sensação de vergonha alheia.

Para amplos setores do grupo dos formadores de opinião, não há delinquência, global ou nacional, com ou sem vítimas fatais, que não possa ser racionalizada. É ato reflexo. Matar é errado, mas se milhares morrem em um atentado em dois prédios comerciais no coração do capitalismo global por ação de um grupo de indivíduos do Oriente Médio, trata-se de uma ação que merece justificação e exposição das “causas profundas”. Ondas de violência em bairros londrinos que prejudicam empregados e pequenos e médios empresários e são reprovadas pela maioria dos nativos e imigrantes, podem ser perfeitamente ligadas a ondas prévias de violência entre gangues racistas e niilistas, mas se jovens saem de lojas com produtos da moda saqueados debaixo do braço, você pode começar a contagem regressiva para o Vladimir Safatle aparecer dizendo que tudo não passou de um grito dos excluídos.

Da mesma forma, se jovens mascarados invadem e vandalizam uma reitoria, isso é lamentável, mas se estão criticando a PM, a Mídia e as Classes Dominantes (policiais não são trabalhadores, dizia um cartaz na reitoria, são apenas o braço armado dos poderosos), apoie-se ou racionalize-se a delinquência e, ipso facto, reprove-se a ação da PM. Para melhorar, o governador ainda é do PSDB.

A julgar pelo que é de conhecimento público, os invasores da reitoria não foram “os uspianos”, como lemos às vezes. A maioria dos uspianos apoia a presença da PM na universidade, até porque vê como ridícula a ideia de que ela restringe a circulação de ideias, aos moldes dos anos 70. Quem invadiu não foi sequer o “movimento estudantil”, mas apenas uma fração deste, formada por PCO, certa Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional, e certo Movimento Negação da Negação.

Nem os estudantes ligados ao PSTU quiseram se juntar à ação. É o tipo de gente que se acha portadora apenas de direitos, jamais de responsabilidades. Sabe-se que essa característica é encontrável facilmente entre os filhos mimados de famílias confortáveis e entre os politicamente radicais, e toma forma bem mais combustível nos indivíduos que são as duas coisas ao mesmo tempo. Na Carta Capital, a repórter e estudante Clara Roman cometeu o eufemismo mais involuntariamente cômico de toda a cobertura do affair. Os extremistas de esquerda, disse ela introduzindo uma fala do sociólogo “especialista em movimento estudantil” Carlos Menegozzo, sofrem de “descondicionamento de classe”. Isso ocorre, explica o especialista, “quando o estudante é desobrigado de criar condições para seu próprio sustento”. Eles estão quase chegando no termo mais adequado, o não-científico.

Agora, como é que os braços na universidade de partidos e facções que há anos se esforçam sem grande sucesso para eleger um vereador em algum dos milhares de municípios brasileiros se transmutam, em vários sites e colunas de opinião, na voz de uma comunidade indignada com a presença da PM no campus? Como é que um grupo que lamenta em suas “teses fundacionais” o fato da esquerda brasileira ter abandonado o projeto bolchevista de Lenin e Trotsky consegue ser visto como uma voz digna de maiores atenções no debate sobre a melhoria do ambiente universitário? Quem vai negar que, como afirmou o governador Alckmin, esses alunos precisam ter aula de democracia?

Você pode defender, como o Wálter Maierovitch, que em uma sociedade democrática moderna, campus universitário não é lugar de polícia. Concordo. Mas isso idealmente. O convênio da USP com a PM, firmado após o assassinato em maio do jovem Felipe Ramos de Paiva, fez com que a criminalidade no local caísse drasticamente. Você pode dizer que o problema da USP é sua arquitetura, que facilita a desenvoltura da bandidagem. Mas não há por que não tomar medidas urgentes enquanto não se redesenha a arquitetura. E, mais importante, todas essas são políticas que se pode reivindicar sem depredar o patrimônio público.

Exceto que os jovens da Quarta Internacional, a exemplo do Ipojuca, se imaginam rumo ao totalitarismo. E se infelizmente tá meio difícil de transformar o país numa União Soviética, que pelo menos se transforme São Paulo na Paris de 68. Ou, se não der a Paris de 68, pelo menos a Santiago de 2011. De fato, um cartaz na reitoria anunciava que agora a coisa ia virar um Chile. Porque o modelo de ensino superior brasileiro pode não ser tão controverso quanto o chileno, mas a Camila Vallejo apareceu na CNN.

E alguns opinadores entraram na fantasia. Lamentando a reintegração de posse pela PM, André Forastieri escreveu no R7 que “os argumentos contra os ocupantes da reitoria da USP são pífios. Eles quebram a lei? Primeiro, se quebram, não importa; leis não existem para serem obedecidas cegamente; a lei é para ser desobedecida e questionada abertamente quando injusta; não é possível aplaudir as rebeliões contra Mubarak e Gaddafi, ou a ocupação de Wall Street, e recriminar os uspianos por não seguir a lei”. É possível que ele esteja de brincadeira. Se não estiver, não, obrigado, eu não estendo a simpatia que tenho por um movimento civilizado contra uma arranjo financeiro demente a uma ação demente de um movimento que, ao menos em parte, defende o fim da presença da PM não apenas na USP, mas também nas favelas antes dominadas pelo tráfico. Quanto ao Egito e à Líbia, com certeza o André tá de brincadeira. Qualquer jornalista com pretensão a seriedade que não faça distinção entre as leis e o papel da polícia em uma ditadura e as lei e o papel da polícia em uma democracia só pode estar de brincadeira, se não quisermos ser mais duros no julgamento.

Mas até aí, para muitos intelectuais e opinadores, essa distinção não existe mesmo, ou é irrelevante. Democracia, numa sociedade capitalista, não passa de uma miragem. E a polícia, numa democracia desse tipo, não pode ser muito diferente da polícia de uma autocracia árabe. Eu não duvido que se algum dos militantes pela causa operária tivesse usado um dos coquetéis molotov que estavam na reitoria para pôr fogo ao próprio corpo, apareceria algum escriba em site de grande visitação para compará-lo a Mohamed Bouazizi. Tal é o nível do nosso debate público.

Um dia, apenas para provar que jovens reacionários de esquerda costumam dar bons adultos reacionários de direita, alguns dos que invadiram a reitoria da USP em 2011, abandonadas as esperanças de revolução, se dedicarão com especial emprenho à crítica dos programas de assistência do governo federal. Então, sua preocupação com as pessoas menos favorecidas será tão forte quanto já é hoje em dia, com a defesa do fim dos mercados. Aí eles compararão o Partido dos Trabalhadores ao Partido Nacional Socialista. É tudo uma questão de falta de caráter.

Daniel Lopes

Editor da Amálgama.

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