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Variações sobre a farandolagem universal

por Rafael Bán Jacobsen (17/01/2013)

A fórmula do último romance de Evandro Affonso traz consigo o risco de tornar a leitura desestimulante

O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam

“O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira (resenha)

Esse é um daqueles livros que, inevitavelmente, deflagram a velha e sempre requentada discussão acerca das convergências e divergências existentes entre a recepção de uma obra pela (assim chamada) crítica especializada e pelo amplo público leitor.

Por um lado, o autor (Evandro Affonso Ferreira, mineiro de Araxá, nascido em 1945) é um dos nomes mais celebrados de nossa atual cena literária, aclamado por seus pares escritores e pelos connoisseurs de literatura em geral (críticos, professores, editores). Seu segundo livro, Araã (2002), foi finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom; com Minha mãe se matou sem dizer adeus (2010), foi finalista do Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e recebeu o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) de melhor romance do ano; mais recentemente, com este O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam (que chamaremos, doravante, apenas de O mendigo), Evandro Affonso Ferreira foi finalista do 8° Prêmio Bravo! de Cultura e também do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

Por outro lado, a prosa de Evandro Affonso Ferreira, que já foi qualificada com adjetivos como “densa”, “complicada” e “hermética”, não é das mais convidativas para a pronta empatia do leitor médio. Na verdade, mesmo um leitor bem formado precisa de atenção (e até certo esforço) para desbravar o estilo do autor, bastante não-linear, fervilhante de referências e preocupado com a forma, com o talhe das frases e com escolhas vocabulares atípicas (Evandro já revelou ter compilado um léxico de quase três mil palavras sonoras que buscava explorar em seus textos, embora, atualmente, já se considere mais livre dessa obsessão particular e mais solto na confecção das narrativas). O crítico literário e escritor Vinícius Jatobá já chegou a ponderar, falando justamente sobre O mendigo, que o “sentimento que motiva cada palavra do relato está invisível pela escolha estilística do autor” e que se trata de um livro “escrito apenas para 43 pessoas”. Uma dessas 43 pessoas é a filósofa e escritora Márcia Tiburi, que considerou O mendigo uma das suas leituras mais marcantes de 2012 e resenhou-o elogiosamente em seu blog Filosofia Cinza; todavia, fora a resenha de Márcia Tiburi e o artigo de Vinícius Jatobá para o Estadão, é difícil encontrar algum outro texto que analise criticamente O mendigo ou que, pelo menos, dê sinais de que o autor tenha de fato lido o romance – abundam, na internet, textos padronizados de divulgação, tentativas de sinopse e notícias sobre a trajetória do livro no mercado. Esse hiato parece corroborar a aparentemente hiperbólica afirmativa de Jatobá sobre os tais 43 leitores.

Portanto, estamos diante de um daqueles livros mais comentados do que lidos. Cabe, então, a pergunta: o que irá encontrar aquele que venha a buscar uma vaga na lista dos 43 leitores do mais recente romance de Evandro Affonso Ferreira?

Primeiro, o que há de mais evidente: trata-se de uma narrativa em primeira pessoa que, sem capítulos e sem parágrafos, sem qualquer corte ou subdivisão, assume a forma de um monólogo em moto-contínuo, através do qual, em certa manhã, em um recanto qualquer de uma grande metrópole, um mendigo partilha com um atento ouvinte sua história de vida, suas reflexões, seus medos e sua erudição. Sim, erudição, pois se trata de um homem bastante culto, profundo conhecedor de Erasmo de Rotterdam, que se afundou na miséria e foi viver nas ruas após ter sido subitamente abandonado pela mulher amada. O tom do discurso assemelha-se ao relato de Riobaldo para o “doutor do jipe” (vide a opção pelo solilóquio, o amálgama entre a linguagem oral e a linguagem vernacular, a repetição de algumas frases ou expressões que funcionam como estribilhos), e o influxo roseano (proposital ou não) evidencia-se ainda no tema da amada perdida (em certo momento, o narrador protagonista fala de sua “predileção por Diadorim”) e na ambiência filosófica (ou, mais especificamente, metafísica) em que se insere a narrativa. Porém, nesse último aspecto, pode-se demarcar uma diferença fundamental entre Grande sertão: veredas e O mendigo: no primeiro, a questão central é a existência (ou não) de Deus (e do Diabo) e a posição do “homem humano” frente a tais imponderabilidades; já no segundo, o leitmotif é o caráter inevitável e generalista da miséria humana e o tênue equilíbrio entre razão e loucura.

Adentrando, agora, os aspectos menos óbvios do livro, talvez a melhor forma de abordagem seja através de uma analogia musical: O mendigo é, essencialmente, uma peça construída a partir de um motivo principal (composto por meia dúzia de “frases” ou “linhas melódicas”) que se repete em variações a piacere. Eis a estrutura básica do tal motivo, apresentada a partir de suas frases:

1) O narrador medita sobre sua própria miséria, sobre a miséria dos outros mendigos (seus companheiros de “farandolagem” na “metrópole apressurada”) e, por extensão, sobre a miséria de todos os homens;

2) O narrador acompanha, no presente da narrativa, alguma cena protagonizada pelos outros mendigos (uma briga, um acidente, um gesto de ternura), comentando-a;

3) O narrador resgata alguma experiência passada, de quando tinha ainda ao seu lado a “amada imortal”, ou a “amada aquela que levantou âncora”;

4) O narrador expõe algum aspecto da vida ou da obra de Erasmo de Rotterdam (“A-hã: estou falando dele, Erasmo de Rotterdam”) que venha a calhar no contexto;

5) O narrador manifesta o medo que sente de enlouquecer (ou de ser tomado pelo “destrambelho in totum”), medo que só cresce desde que recebeu da amada o bilhete anunciando o fim do relacionamento (“ACABOU-SE; ADEUS”);

6) O narrador manifesta a esperança de que a amada ressurja (“Ela virá eu sei”) para salvá-lo das ruas e do abandono, libertando-o da “fedentina” e resgatando o seu “cheiro primevo de alecrim”.

Com efeito, a exposição do motivo assim estruturado não ocupa mais do que dez páginas; depois disso, o que há no livro é uma repetição desse mesmo motivo, privilegiando uma ou outra frase, trocando, por vezes, seu ordenamento, reafirmando ou suprimindo notas, invertendo acordes, mudando a harmonia ou o ritmo, brincando de contraponto. E assim seguem-se as variações até que se completem as mais de 120 páginas do livro, ad libitum, sendo possível que prosseguissem ad infinitum – ou ad nauseam, diriam alguns. Sim, pois essa fórmula, apesar de bem pensada e bem conduzida, traz consigo o risco de tornar a leitura desestimulante, por duas principais razões.

A primeira é que, a cada repetição do motivo, não surgem elementos genuinamente novos na trama, não há revelações, não há guinadas. Sendo assim, não será difícil encontrar leitores que julguem O mendigo como um texto enfadonho e até decepcionante, especialmente se pensarmos em um leitor médio preocupado com um enredo constituído por uma sucessão de eventos que conduzam a um clímax e que redundem na obtenção de respostas às questões inicialmente apresentadas e na consequente solução do conflito. Aqui, o conflito não é resolvido; o conflito simplesmente é apresentado e reapresentado de maneiras diferentes (e, às vezes, nem tão diferentes assim, gerando constantes sensações de déjà vu ao longo do percurso de leitura). O conflito não é resolvido; o conflito simplesmente é.

A segunda razão que pode tornar desestimulante a leitura de O mendigo é um efeito colateral de sua estrutura tão bem pensada: a partir do momento em que o leitor identifica o motivo da narrativa e a meia dúzia de frases que o compõem, torna-se inevitável a impressão de se estar diante de uma bela edificação, um portento arquitetônico que, no entanto, ainda tem aparentes os andaimes utilizados em sua construção e as vigas que o sustentam. Perde-se, assim, um tanto do encantamento.

Ainda com respeito à forma do livro, há um aspecto microestrutural que se deve mencionar: não é em todas as variações que a transição de uma frase a outra se dá de maneira suave, límpida, natural. Em alguns pontos, a passagem de uma das linhas melódicas (a esperança pelo retorno da amada, por exemplo) para outra (a exposição do pensamento de Rotterdam, digamos) se dá de modo abrupto, de forma aparentemente gratuita, ou pior, forçada, aos solavancos. O trecho a seguir serve para ilustrar:

Primeira providência seria ensaboar-me horas seguidas debaixo de chuveiro de quentura máxima – sem pressuposição. Tão certo quanto era incontestável que ele representava o que havia de mais moderno em todos os avanços intelectuais importantes de seu tempo. Sim: Erasmo de Rotterdam – o mesmo que dizia que a paz menos vantajosa é mais vantajosa que a guerra mais justa. As obras desse pacifista incondicional foram postas no Índex pela Igreja católica em 1558. Virá – eu sei. Sim: agora falo dela amada imortal. Voltará para reaver meu cheiro de alecrim. (p. 71)

Não obstante, certamente ciente dos riscos e confiante na sua proposta, o autor nos oferece um texto rico e repleto de acertos, especialmente no retrato, a um só tempo, lírico e realista que consegue fazer da vida dos desvalidos que habitam as grandes cidades, sem jamais resvalar para a pieguice ou a escatologia. Além disso, verdadeiras joias imagéticas esperam pelo leitor nas entranhas desse ininterrupto parágrafo em que se constitui a obra:

“… alimento-me da fugacidade deste éter destampado a que chamamos esperança.” (p. 44)

“… solidão é melancolia travestida de saudade.” (p. 61)

“Dia anterior àquele em que ela deixou bilhete elíptico ACABOU-SE; ADEUS sobre o criado-mudo, disse-me, olhos nos olhos: Vou amá-lo vida toda. Silhueta da lâmina da despedida estava por trás daquele olhar umedecido.” (p. 78)

“Impossível entrar na alma de quem já abanou moscas sobre rostos e mãos e braços e pernas de cancerosos envergonhados da própria podridão; impossível entrar na alma de quem já entrou na morte de uma criança.” (p. 80)

“Quando estamos a poucos passos do destrambelho in totum parece que perdemos o asco o olfato a autoestima. Menos esperança. Coração possivelmente transforma-se em uma caixa de Pandora às avessas.” (p. 102)

Seriam inúmeros os exemplos de passagens fortes, impactantes, em que a linguagem bem cuidada do autor atinge pontos altissonantes. Evandro Affonso Ferreira, indo na contramão do texto enxuto e despojado tão caro ao gosto contemporâneo, consegue excelentes resultados apostando em um certo barroquismo, no uso impiedoso de adjetivos e advérbios, carregando nas tintas, o que demonstra domínio do escritor sobre a palavra.

Em contrapartida, há vários momentos em que escapam clichês: uma “possivelmente eterna quarta-feira de cinzas chuvosa” (p. 11) para simbolizar a tristeza que o narrador sente pela ausência da amada; declarações do tipo “encontrando-a poderei me encontrar outra vez” (p. 27) para falar da ânsia pelo reencontro; invocar a “esfera de que nos falou Platão” (p.60) a fim de ilustrar a desilusão amorosa e a sensação de incompletude dela decorrente; expressões como “subsolo da alma” (p. 61), “feridas nunca cicatrizadas que ela mesma traz no peito” (p. 68); a insistência na imagem fácil do “barqueiro Caronte” ao se referir à morte; etc. Ademais, apesar do cuidado que o autor evidencia na construção das frases, esmerando-se na lapidação dos ritmos e das sonoridades, aparecem, aqui e ali, aliterações não propositais que sujam o texto, tais como “Morte. Também ela chama-me à memória minha amada” (p. 36) ou “dose dupla dos deuses dos desamparos” (p. 59), além de erros gramaticais que escaparam à revisão (como na frase “Há grande possibilidade de as drogas levá-lo primeiro”, na página 123).

As imperfeições, no entanto, são insuficientes para desmerecer o resultado final do romance, que é uma construção original, bem elaborada e que guarda muitas belezas para aqueles – provavelmente poucos – que não se intimidem perante os desafios de uma leitura nada trivial. E, com certeza, é para esses que Evandro Affonso Ferreira escreve.

::: O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam :::
::: Evandro Affonso Ferreira :::
::: Record, 2012, 128 páginas :::
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Rafael Bán Jacobsen

Físico da UFRGS e escritor. Seu romance Uma leve simetria (2009) foi finalista do Prêmio Açorianos.

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